A transição energética já está em marcha em Angola. Falta saber se o País consegue acelerar o passo sem perder de vista a realidade económica que ainda o mantém dependente do petróleo. Para Vladimir Russo, director Executivo da Fundação Kissama, o desafio está em transformar a descarbonização numa oportunidade de investimento, com retorno e capacidade de mobilizar empresas de todas as dimensões.
“Eu diria que esta mudança de paradigma da transição energética está a acontecer em Angola. A pergunta é: queremos que ela seja mais rápida ou não?”, questionou o ambientalista, durante a mesa-redonda sobre ‘Ambiente, Financiamento e Transição Energética: Que Futuro Estamos a Construir para Angola?’, realizada nesta quarta-feira, 21, em Luanda, no âmbito da VI Conferência E&M Ambiente e Desenvolvimento.
O sector petrolífero já dá sinais dessa transformação. Segundo Vladimir Russo, várias empresas deixaram de se posicionar exclusivamente como produtoras de petróleo e gás para assumirem uma identidade mais abrangente, ligada à energia. Os investimentos em hidrogénio verde e descarbonização, bem como a criação de departamentos especializados, revelam uma mudança que ganha espaço sob pressão internacional.
Mas Angola enfrenta uma equação complexa. Enquanto a produção actual ronda 1 milhão de barris por dia, a estratégia de longo prazo aponta para aumento da produção. Ao mesmo tempo, o Governo mantém a aposta na exploração petrolífera, incluindo nas bacias terrestres (onshore), e prepara novas estratégias para o sector.
Entre a continuidade da produção e a urgência de reduzir emissões, a questão já não é apenas querer mudar, mas ter condições para o fazer. “O querer é diferente do poder”, advertiu o responsável, apontando as exigências internacionais em matéria de sustentabilidade, critérios ESG e transparência na indústria extractiva.
A adaptação, porém, não avança ao mesmo ritmo para todos. Enquanto grandes empresas dispõem de melhores condições para responder às novas exigências, micro, pequenas e médias empresas continuam a enfrentar limitações de capacidade e financiamento.
Para Vladimir Russo, acelerar a transição exige, por isso, uma mudança de perspectiva: deixar de encarar a sustentabilidade como uma despesa adicional e demonstrar o seu potencial de retorno económico.
“A transição energética é um investimento, não um custo”, defendeu, alertando, contudo, que a pressa não pode substituir o planeamento. Observou que a transformação deve avançar com estratégias ajustadas à realidade nacional, para que a ambição climática não produza erros nem deixe para trás quem tem menos capacidade para acompanhar a mudança.















