Angola quer a Namíbia como accionista da Refinaria do Lobito, numa estratégia que visa reduzir a dependência de combustíveis importados, aumentar a transformação local do petróleo e posicionar o país como fornecedor de produtos refinados à África Austral. O convite foi feito pelo Presidente angolano, João Lourenço, durante a visita de Estado da homóloga namibiana, Netumbo Nandi-Ndaitwah, a Angola, nos dias 19 e 20 de Outubro.
Segundo o Chefe de Estado angolano, a entrada da Namíbia no capital do empreendimento poderá reforçar a cooperação energética bilateral e facilitar o acesso aos produtos refinados pelos países da região.
A iniciativa enquadra-se na estratégia defendida pelo Presidente angolano de aumentar a transformação local dos recursos naturais, reduzir a dependência das exportações de matérias-primas e criar mais oportunidades de emprego.
“Quem tem petróleo tem que ter refinarias, tem que concluir o trabalho, não pode ficar como produtor de petróleo simplesmente, porque tem que refinar, até porque há quem não tenha petróleo, não exporte o petróleo e tenha refinarias”, declarou João Lourenço, ao defender uma maior capacidade de processamento local dos recursos petrolíferos.
A posição surge num contexto de perturbações nos mercados internacionais de energia, que reforça a importância da capacidade de refinação para a segurança do abastecimento e a redução da exposição às importações de combustíveis. “Nós, os produtores de petróleo, por maioria de razão, temos que prestar muita atenção à necessidade de vendermos cada vez menos petróleo bruto e passarmos a vender muito mais o petróleo já refinado - os produtos saídos da refinação do petróleo”, acrescentou o presidente angolano.
Por sua vez, a Presidente namibiana, Netumbo Nandi-Ndaitwah, associou o projecto à criação de emprego e à transformação local dos recursos. “A exportação de petróleo bruto é a exportação de emprego para outros países”, declarou.
A chefe de Estado explicou também que a Namíbia pretende aproveitar a experiência angolana no sector petrolífero, numa altura em que a descoberta de petróleo no país abre novas perspectivas para o desenvolvimento da indústria nacional.
“Desenvolvemos a nossa lei petrolífera nos primórdios da nossa Independência, assumindo que teríamos petróleo. Hoje, já não estamos a presumir, é uma realidade. E, por isso, quando nos foi dito que há petróleo na Namíbia, a primeira paragem nossa foi Angola, para que pudéssemos aprender mais, porque tem uma experiência e continuaremos a aprender e a trabalhar juntos”, assegurou.
Localizada na província de Benguela, a Refinaria do Lobito foi projectada para processar 200 mil barris de petróleo bruto por dia, com produção de gasolina, gasóleo e outros derivados destinados ao mercado nacional e à exportação.
Em Setembro, a execução física do projecto rondava os 26%. A primeira fase, avaliada em cerca de 3,8 mil milhões de dólares, prevê o início da produção inicial em Dezembro de 2027, enquanto a conclusão integral está projectada para 2029.
João Lourenço afirmou que a capacidade prevista permitirá não só responder às necessidades do mercado angolano, mas também fornecer produtos aos países vizinhos.
“Com esta capacidade, estaremos em condições não apenas de satisfazer o mercado angolano em refinados, como também de satisfazer as necessidades dos países vizinhos”, afirmou João Lourenço, acrescentando que os países que participarem no capital da refinaria terão prioridade no acesso aos produtos, sem excluir outros clientes da região.
O convite à Namíbia insere-se nos esforços de Angola para atrair parceiros regionais para a estrutura accionista da Refinaria do Lobito. A iniciativa não é inédita: a Zâmbia manifestou interesse em adquirir uma participação de 26% no projecto, enquanto a Tanzânia e o Gabão também foram sondados durante visitas de Estado.
No início de Outubro, Angola apresentou igualmente ao Botswana uma proposta de participação de até 30% no capital da refinaria.
Apesar destes contactos, a Sonangol continua a ser a única accionista, segundo os dados disponibilizados no texto de base. A entrada de novos investidores poderá contribuir para a mobilização de capital e para o estabelecimento de relações comerciais de longo prazo com os países participantes.
Além do sector petrolífero, Angola e Namíbia pretendem aprofundar a cooperação nos domínios da energia, dos recursos hídricos e do investimento bilateral.
Durante a visita de Estado de Netumbo Nandi-Ndaitwah, os dois países rubricaram oito novos acordos de cooperação nas áreas da Defesa, Cultura, Desporto, Finanças, Pescas, Aquicultura, Turismo e Diplomacia.















