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Capital de Risco em Angola: Um mercado de investimento emergente

Fábio Matias
20/10/2026
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Em 2025, o mercado global de negócios de capital de risco atingiu cerca de USD 425 mil milhões. Desse montante, apenas USD 2,1 mil milhões foram transaccionados no continente africano.

Toda a empresa que pretende crescer acaba, mais cedo ou mais tarde, por  enfrentar uma questão essencial que é: como financiar o próximo passo? 

Expandir a actividade, inovar, acompanhar novas tendências, construir uma  cultura organizacional sólida e competir num mercado cada vez mais exigente  requerem recursos financeiros, mas também conhecimento, estratégia e  capacidade de execução.

Tradicionalmente, o crédito bancário tem sido uma das principais respostas às  necessidades de financiamento das empresas. Mas não é a única opção. Para  projectos que combinam elevado potencial de crescimento com maior nível de  risco, existem alternativas capazes de oferecer algo mais do que dinheiro. É neste espaço que surge o Investimento em Capital de Risco (ICR). Uma modalidade que permite investir em empresas em fase inicial, de transformação ou expansão, através da aquisição de participações no capital social ou da subscrição de instrumentos de dívida susceptíveis de futura conversão em participação accionista.

A diferença está, muitas vezes, no que acompanha o capital. O investidor pode trazer experiência, conhecimento do mercado, uma rede de contactos e apoio às decisões estratégicas. Em determinadas situações, pode mesmo integrar o Conselho de Administração da empresa participada, contribuindo directamente para a criação de valor e para a aceleração do crescimento. No capital de risco, o investidor não tem necessariamente de ser apenas uma fonte de financiamento, pode tornar-se um parceiro de crescimento.

No contexto africano, os números ajudam a perceber a dimensão do desafio. Em 2025, o mercado global de negócios de capital de risco atingiu cerca de USD 425 mil milhões. Desse montante, apenas USD 2,1 mil milhões foram transaccionados no continente africano. Entre os factores que ajudam a explicar esta diferença encontram-se a inflação e as taxas de juro elevadas, a volatilidade das moedas locais e algumas barreiras culturais, nomeadamente a desconfiança relativamente à entrada de investidores externos em negócios de natureza familiar. Existe ainda uma forte concentração geográfica. 53% das transacções na região foram canalizadas para quatro das sete maiores economias africanas (Nigéria, África do Sul, Egipto e Quénia). O dado evidencia a relação entre a  capacidade de atrair capital, a dimensão do mercado e a actividade económica. África tem espaço para crescer, o desafio é transformar potencial em investimento.

Em Angola, ainda não existem relatórios globais consolidados sobre os volumes transaccionados em capital de risco comparáveis aos disponíveis noutras geografias. Isso não significa, porém, que o mercado esteja parado. Pelo contrário. Observa-se uma estruturação progressiva da actividade, assente em duas vertentes, pública e privada.

Na vertente pública, destaca-se o Fundo Activo de Capital de Risco Angolano (FACRA), orientado para o apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) com elevado potencial de crescimento. A sua intervenção combina investimento e acompanhamento da gestão, procurando contribuir para a criação de emprego qualificado e para o aumento da produção nacional. De acordo com os dados disponíveis, a carteira do FACRA regista cerca de Kz 1,6 mil milhões, distribuídos por cinco províncias e por sectores como transportes, produção têxtil, fertilizantes e agricultura.

Na vertente privada, encontram-se os Organismos de Investimento Colectivo de Capital de Risco (OIC-CR). Constituídos sob a forma de Sociedades ou Fundos de Investimento, permitem reunir recursos de diferentes investidores para investir em empresas, conjugando financiamento ou capitalização com acompanhamento especializado. Integrados no ecossistema do Mercado de Capitais, os OIC-CR estão sujeitos ao registo e à supervisão da Comissão do Mercado de Capitais (CMC), nos termos do Regime Jurídico dos Organismos de Investimento Colectivo de Capital de Risco (RJOIC-CR)4 e demais normativos aplicáveis.

O primeiro OIC-CR foi registado junto do regulador em 2021. Desde então, o crescimento tem sido expressivo. O valor líquido global sob gestão passou de cerca de Kz 4,9 mil milhões, em 2024, para Kz 66 mil milhões, em 2025, e Kz 133 mil milhões, em Julho de 2026. Actualmente encontram-se registados 11 OIC-CR, com investimentos nos sectores bancário, mineiro, produtivo, farmacêutico e de serviços sociais. Mais do que números, começam a surgir casos que mostram o impacto do capital de risco na economia real. No sector farmacêutico, o Greenfield (Fundo de Investimento de Capital de Risco) investiu na OVIHEMBA (Laboratório Farmacêutico, S.A.), no Huambo, a primeira unidade de produção de medicamentos de origem nacional. 

Na mobilidade urbana, a ANDA angariou cerca de EUR 3 milhões, em Outubro de 2025, numa ronda liderada por investidores internacionais associados ao  capital de risco, provenientes de França, Áustria, Japão e Estados Unidos. Em Março de 2026, realizou nova ronda no mercado interno e arrecadou USD 1,2 milhões através do Kimbo (Fundo de Investimento de Capital de Risco).

Estes casos mostram duas dimensões importantes do desenvolvimento do  ecossistema angolano. A expansão do investimento de origem nacional e a capacidade das empresas angolanas para atrair capital estrangeiro e articulá-lo com recursos internos. Capital internacional que entra e capital nacional que acompanha, dois sinais relevantes de um mercado em construção.

‍Caminhos para a consolidação

Um mercado de capital de risco não cresce apenas porque existem investidores e empresas à procura de financiamento. Precisa de um ecossistema favorável. Neste sentido, o Governo Angolano tem vindo a reforçar medidas destinadas a apoiar o desenvolvimento desta modalidade de investimento, através de políticas fiscais, propostas legislativas e iniciativas de inclusão financeira.

No domínio fiscal, destacam-se as isenções e reduções de impostos, nomeadamente: Industrial, sobre a Aplicação de Capitais e de Selo, aplicáveis através dos OIC-CR, no âmbito do Código de Benefícios Fiscais. Acrescem os benefícios previstos na Lei das MPME, quando aplicáveis e mediante certificação do INAPEM.

No plano legislativo, merece atenção a proposta de Lei das Startups, actualmente em apreciação pelas instâncias competentes, que prevê um enquadramento específico para empresas emergentes de base tecnológica e inovadora, incluindo mecanismos de apoio fiscal e financeiro. Há ainda um desafio menos visível, mas igualmente importante, a literacia financeira. A continuidade da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (ENIF) pode contribuir para reduzir barreiras culturais e aumentar o conhecimento sobre instrumentos de investimento. Afinal, dificilmente se escolhe uma solução financeira que não se conhece ou não se compreende.

A criação de uma Associação Local de Capital de Risco poderá igualmente aproximar investidores e empreendedores, tendo como referências a SAVCA  (South African Venture Capital Association), a KPEVCA (Kenya Private Equity and Venture Capital Association), a ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) e a APCRI (Associação Portuguesa de Capital de Risco e Desenvolvimento).

 Em suma, o capital de risco em Angola encontra-se ainda numa fase emergente, mas os sinais de evolução são claros. O crescimento dos activos sob gestão, o aumento do número de OIC-CR, o investimento em sectores estratégicos e a capacidade de empresas nacionais para mobilizar capital dentro e fora do país revelam um mercado que começa a ganhar dimensão. O desafio agora é transformar esse crescimento numa dinâmica sustentável, assente em regulação eficiente, incentivos adequados, literacia financeira, inovação e maior aproximação entre investidores e empreendedores. Quando estas peças funcionam em conjunto, o capital deixa de ser apenas financiamento, transforma-se em empresas mais fortes, novos projectos, produção, emprego e capacidade para diversificar a economia. É aí que reside uma das principais oportunidades do capital de risco em Angola. Fazer com que o investimento financeiro se traduza em valor para a economia real e para as comunidades.

*Chefe da Divisão de Supervisão de Gestão de Activos