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O paradoxo da inclusão financeira feminina: entre as metas do BNA e a resposta insuficiente dos bancos

António Talala
26/10/2026
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DR

Inclusão financeira exige mais do que disponibilizar produtos bancários: requer soluções acessíveis e adequadas às necessidades das mulheres.

A inclusão financeira feminina tem registado progressos significativos. No entanto, ter uma conta bancária não significa, necessariamente, utilizar os serviços financeiros de forma regular e tirar deles benefícios concretos.

Para as instituições financeiras, esta realidade representa um desafio, mas também uma oportunidade para desenvolver soluções ajustadas às necessidades das mulheres, considerando os seus rendimentos, as suas actividades económicas e os obstáculos que enfrentam no acesso à poupança, aos pagamentos digitais e ao financiamento.

Neste artigo, proponho uma reflexão sobre a inclusão financeira feminina nos países de baixo e médio rendimento, analisando o que revelam os números, o papel desempenhado pelo Banco Nacional de Angola e o grau de resposta da banca comercial angolana. Procuro, assim, compreender em que medida as estratégias adoptadas se têm traduzido em soluções concretas e em oportunidades efectivas para as mulheres.

Evolução da Inclusão Financeira Feminina (2021–2024)‍

De acordo com o relatório World Bank Global Findex 2025, os indicadores de inclusão financeira feminina nas economias de baixo e médio rendimento apresentam a seguinte evolução:

Apesar destes avanços, persistem barreiras relacionadas com os custos dos serviços, a distância aos pontos de atendimento, a literacia financeira e digital e as dificuldades de acesso ao crédito.

Perante esta realidade, as instituições financeiras precisam de ir além da abertura de contas e apostar em soluções que promovam a utilização efectiva dos serviços, a autonomia financeira e o desenvolvimento das actividades económicas lideradas por mulheres.

A inclusão financeira exige mais do que disponibilizar produtos bancários: requer soluções acessíveis e adequadas às necessidades das mulheres. Para a banca comercial, importa combinar educação financeira, serviços digitais e financiamento adaptado às empreendedoras, comerciantes e responsáveis por pequenos negócios.

A estratégia do BNA: reforçar o acesso e a utilização dos serviços financeiros

O BNA tem reforçado a inclusão financeira através da proposta da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (ENIF) 2025–2027, visando ampliar o acesso, a utilização e a qualidade dos serviços financeiros. Em Abril de 2026, foi anunciada a meta de aumentar a taxa de inclusão financeira de 49% para 70%. Para as mulheres, o desafio é transformar esta estratégia em resultados concretos, promovendo a literacia financeira, a poupança, os pagamentos digitais e o acesso ao financiamento produtivo.

A resposta da banca comercial: das orientações às soluções concretas.

Dos 22 bancos autorizados a operar em Angola, apenas 2 que reprentam 9,1%) apresentaram no último ano iniciativas específicas de inclusão financeira feminina. Um anunciou, em parceria com o FGC, financiamento até 200 milhões Kz por projecto, com garantia até 80%, para negócios liderados por mulheres. O outro relançou a Oferta Mulher, com conta sem custos de manutenção, gestor dedicado, acesso facilitado ao crédito, seguros e vantagens junto de parceiros. Estas iniciativas combinam apoio ao empreendedorismo feminino com serviços bancários adaptados às necessidades das mulheres.

Incluir financeiramente é criar oportunidades.

A adesão ainda incipiente da banca comercial a iniciativas específicas de inclusão financeira feminina evidencia a necessidade de o regulador criar mecanismos de incentivo que estimulem mais instituições a desenvolver produtos e serviços adaptados às necessidades das mulheres.

Por outro lado, o impacto das iniciativas actualmente desenvolvidas pelos dois bancos deve ser avaliado com base em indicadores concretos, nomeadamente o número de projectos financiados, o volume de crédito concedido, a distribuição geográfica e sectorial das beneficiárias e a sustentabilidade dos negócios apoiados. Esta avaliação permitirá aferir se as iniciativas estão efectivamente a ampliar o acesso ao financiamento e a gerar resultados económicos sustentáveis para as mulheres empreendedoras.

O desafio consiste em transformar as estratégias em resultados mensuráveis, ampliando o acesso das mulheres à poupança, aos pagamentos digitais e ao financiamento de actividades produtivas.

‍*Economista; Consultor de Projectos de Investimento e Analista Financeiro Certificado pela CMC.

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