João Ferreira, presidente da Associação Nacional de Café, Cacau e Palmar de Angola (CAFANG), trabalha com a cultura do café desde 1973, e dirige uma instituição de âmbito empresarial que controla mais de 65 membros. O produtor e líder associativo falou à revista Economia & Mercado à margem Mesa Redonda do Café realizada recentemente pelo BFA nas instalações da fábrica da Angonabeiro, em Luanda. A conversa girou à volta do acesso ao financiamento para os produtores do café, a qualidade do café angolano e seu lugar no plano da diversificação da economia nacional.
Os produtores de café queixam-se de dificuldades no acesso ao financiamento pela banca, mas esta diz que tem dinheiro mas há poucos projectos devidamente estruturados, bancáveis. Onde é que está verdadeiramente o problema?
Confesso que já não ouvia há muitos anos falar-se do café como se fala hoje, desde o próprio Presidente da República, o ministro do Estado, o ministro da Agricultura, o Instituto do Café. Há uma viragem completa na abordagem sobre o sector do café. Sobre o financiamento, o que há são critérios que impedem muitos produtores de acederem ao banco. Começámos a mudar o caminho, começámos a dar os primeiros passos, caímos, levantámos e continuamos até aprender a andar.
Está a assumir que o problema está do lado dos produtos.
O que acontece é que você tem um plano de produção, elabora o projecto, se, quando for apresentar o projecto, não tiver a contrapartida, cerca de 10%, o seu projecto não anda. Isto para além das exigências que são normais, como ter uma contabilidade organizada, certificação da fazenda, enfim, todas as exigências possíveis. Mas o maior handicap é exactamente como conseguir os tais 10% do capital para quem estiver a começar.
Está a falar da linha de financiamento do BFA para a produção de café, que conta com a garantia do Estado, mas que, ao longo de quase dois anos de vigência, não produziu grandes resultados. Diante disso, qual seria a saída, particularmente para quem está a começar e não dispõe de parte do capital inicial para aceder ao crédito?
O banco é que tem que flexibilizar, tem que pensar que o café é uma commodities de relevo internacional por ser vendido em moeda forte, pelo que o próprio produto pode servir de garantia em caso de incumprimento. Neste encontro [Mesa Redonda do Café, promovida pelo Banco de Fomento Angola], a representação do BFA reconheceu que é preciso acertar alguns aspectos, porque o protocolo que foi assinado com o INCA não funcionou como devia.
Os dados fornecidos pelo Instituto Nacional do Café (INCA) indicam que o café angolano, de referência de exportação, está na classe 2 BB, qualquer coisa como de 5.º nível. O que tem faltado para elevar a sua qualidade?
O nosso café é excelente, o café robusta de Angola é dos melhores, senão mesmo o melhor robusta do mundo.
Não contraste com a classificação apresentada?
O café tem de ser tratado desde a plantação, ou seja, desde a muda até à colheita, incluindo a secagem, torra e moagem. Tem de haver estes cuidados todos. Porque, como a procura é pouca, a mão-de-obra também não é muita e a capacidade financeira dos produtores é pouca, há produtores que colhem o café de qualquer maneira, secam de qualquer maneira e vendem de qualquer maneira. Vendem de qualquer maneira porque a procura é muito grande. Hoje, infelizmente, não conseguimos encontrar a primeira classe no nosso café exactamente por causa da forma como o tratamos.
Tudo isso deriva da falta de conhecimento por parte dos produtores ou é uma mera negligência?
Em alguns casos, é falta de conhecimento, em outros casos, é a ambição de vender café de qualquer maneira, ou seja, porque o produtor sabe que vai haver sempre comprador.
Mas não existe regulação para se manter mínimos de qualidade?
Antigamente, se não tivesses um café com qualidade, não vendias. Hoje, como todo mundo compra café, há muita gente à procura de café, as pessoas produzem ao seu bel-prazer.
O acesso a insumos e a maquinarias faz parte também da lista de reclamações dos produtores.
Antigamente, todo mundo recebia tractores do Estado, mas, hoje, o produtor compra essas maquinarias e já tem mais cuidado com o seu uso. É uma mudança que transfere para o produtor maiores responsabilidades na gestão dos seus próprios recursos. Agora há empresas e programas que financiam a compra dessas maquinarias. É economia de mercado.
O mesmo modelo está a ser adoptado a nível dos fertilizantes, que, segundo o ministro da Agricultura, já não estão a ser distribuídos aos produtores, ou seja estes passaram a comprá-los. Mas, no modelo passado, estes insumos eram oferecidos?
Não era assim antes. Agora, o produtor arca com os custos da aquisição dos fertilizantes e já tem mais cuidado sobre como usá-los, já se preocupa mais com racionalizar, já não os aplica de qualquer maneira.
Defende a criação de uma cooperativa de crédito para apoio ao financiamento aos produtores. Como isso iria ser articulado?
Já abordámos esta ideia em reunião do Conselho Consultivo com o Ministério da Indústria e Comércio e outras entidades.
Qual foi o feedback?
O feedback não depende só do Estado, depende de todos nós.
Mas como é que a ideia foi acolhida?
Acolheu-se com satisfação, porque, em toda parte do mundo, uma cooperativa de crédito gere muitos benefícios, porque proporciona direitos ao financiamento aos produtores e outros benefícios. Essa é uma das soluções. Mas não passa apenas pela cooperativa de crédito; passa, também, na nossa opinião, por reforçar o café como uma commodities que se pode vender em moeda forte. Há alguns mecanismos que devem ser ajustados com o Banco Nacional de Angola, como criação de linhas de crédito, cartas de crédito, etc, etc.
Já agora, como anda o Fundo de Desenvolvimento do Café de Angola?
Esta é uma das nossas preocupações: a revitalização do Fundo do Café. O café tem um fundo há muitos anos, que já funcionou, agora funciona a conta-gotas, porque depende do Orçamento Geral do Estado. Essa revitalização podia ajudar sobretudo as pequenas e médias empresas.
Sobre o potencial do café, o empresário Carlos Cunha afirma que o café é uma commodities capaz de ombrear com o petróleo. Pensa da mesma forma?
Não tenho dúvidas disso, exactamente porque o petróleo termina, mas o café não acaba. É uma commodities que se paga em moeda forte. Só para ter uma ideia: nessas fazendas que foram fechadas, que viraram matas, dentro delas, ainda há culturas de café que resistem há mais de 50 anos. É sustentável o que afirmamos.















