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Quem paga a falta é o cidadão: o absentismo no serviço público

Manuel Vunge
16/10/2026
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Quando um funcionário falta sem razão, o preço mais alto não é pago pela instituição, mas pelo cidadão do outro lado do balcão.

O absentismo no serviço público não é apenas uma questão de indisciplina. É o sintoma de falhas de liderança, de reconhecimento e de formação de valores, e quem paga o preço é sempre o cidadão que encontra a cadeira vazia. O combate faz-se com estrutura, e não apenas com discurso.

Será o absentismo, como tantas vezes se assume, um simples problema de indisciplina individual? Ou será antes o sintoma mais visível de uma falência mais profunda, de liderança, de reconhecimento e de formação de valores, que as organizações preferem não diagnosticar?

Há uma cena que se repete em repartições, hospitais, escolas e em tantos outros serviços espalhados pelo país. O cidadão chega cedo, com o seu problema e a esperança de o resolver ainda naquela manhã. Encontra uma sala meio vazia, cadeiras sem ninguém e um colega que lhe responde, com o cansaço de sempre, que o responsável pelo seu assunto ainda não chegou, ou saiu sem dizer se voltava. O cidadão regressa a casa sem resposta. Perdeu tempo, perdeu dinheiro no transporte e perdeu, sobretudo, um pouco mais da fé que ainda tinha na instituição que deveria servi-lo.

Este é o rosto humano do absentismo. Não é apenas uma estatística de recursos humanos, nem uma linha vermelha num relatório de assiduidade. É, antes de mais, uma promessa quebrada entre quem serve e quem é servido, um fio de confiança que se desgasta ausência após ausência, até se romper.

Como profissional de recursos humanos, tenho o privilégio de observar de perto aquilo que os números, por si só, não explicam. O absentismo raramente tem uma única causa. Na maior parte das vezes, é um sintoma composto, feito de fragilidades que se cruzam e se alimentam umas às outras ao longo do tempo.

Há o absentismo da desmotivação, de quem já não encontra sentido no que faz, porque nunca foi reconhecido nem ouvido, e deixou de acreditar que o seu esforço faz diferença. 

Há o absentismo da sobrecarga silenciosa, de quem acumula funções e frustrações até que faltar se torna a única forma de respirar. E há também, digamo-lo com honestidade, o absentismo do descomprometimento, de quem encara o lugar de trabalho como um direito adquirido, e não como uma responsabilidade diária perante os outros.

Há o absentismo da sobrecarga silenciosa, de quem acumula funções e frustrações até que faltar se torna a única forma de respirar.

Existe ainda uma raiz mais funda, em que poucos têm coragem de tocar. Enquanto sociedade, falhámos em formar pessoas com uma noção clara do valor do compromisso. Quando a educação falha, em casa, na escola ou na comunidade, deixamos crescer cidadãos sem uma bússola que lhes explique por que razão chegar a horas importa, por que razão cumprir a palavra dada importa, e por que razão o lugar que ocupam no trabalho não lhes pertence só a eles, mas a todos os que dele dependem. Mais cedo ou mais tarde, essa ferida educativa reaparece disfarçada de absentismo, de descuido, de indiferença perante o outro.

O absentismo nunca fica contido entre as quatro paredes de uma instituição. Transborda e recai, quase sempre, sobre quem tem menos poder para reclamar. É o doente que não é atendido a tempo. É o aluno cuja aula simplesmente não acontece. É o empresário que perde uma semana inteira à espera de uma licença que devia demorar dois dias. É a família que gasta o pouco que tem em transporte para ouvir sempre a mesma resposta. É o trabalhador que perde uma oportunidade por não conseguir, a tempo e horas, uma simples declaração.

E há uma forma de ausência que não aparece nos registos de assiduidade: a de quem está presente, mas não está. O funcionário sentado à secretária, de olhos no telemóvel, sem vontade de resolver o que tem à frente, também falta, ainda que o livro de ponto diga o contrário.

Há, por fim, um custo menos visível, mas igualmente grave: o da credibilidade. Cada vez que uma instituição falha por ausência dos seus funcionários, o cidadão aprende a esperar um pouco menos. E essa expectativa reduzida torna-se ela própria um problema, porque uma sociedade que deixa de esperar qualidade deixa também de a exigir, e o ciclo repete-se, geração após geração, como se fosse normal.

Não é normal. E é precisamente por não o ser que este tema merece ser encarado com seriedade, com olhos de ver, como dizia o outro, sem acusações fáceis, mas também sem complacência confortável.

Acredito que o absentismo se combate com estrutura, e não apenas com discurso. Deixo aqui alguns caminhos que, trabalhados em conjunto, podem ajudar a inverter esta realidade.

O primeiro passa por uma liderança presente e próxima. Chefias que conhecem verdadeiramente as suas equipas conseguem identificar cedo os sinais de desmotivação e agir antes que se transformem em ausência crónica. Liderar não pode continuar a significar apenas validar presenças. Tem de significar “acompanhar pessoas”.

O segundo é a criação de sistemas de reconhecimento justos. Quando o esforço e a assiduidade deixam de contar na progressão da carreira, no salário ou no reconhecimento público, perde-se o incentivo mais natural ao compromisso. Reconhecer quem cumpre é tão importante como responsabilizar quem falha. O novo regime de avaliação de desempenho da Função Pública, em vigor desde Janeiro, que passou a ser semestral e inclui a assiduidade e a pontualidade entre os factores avaliados, pode ser um bom instrumento, desde que não se fique pelo papel.

Reconhecer quem cumpre é tão importante como responsabilizar quem falha.

O terceiro exige coragem institucional: aplicar os mecanismos de responsabilização de forma consistente e transparente. Regras que existem apenas no papel não mudam comportamentos. A ausência injustificada tem de ter, de facto, consequências, e essas consequências têm de ser iguais para todos, independentemente do cargo de cada um ou das relações que mantém com as chefias.

O quarto, talvez o mais lento, mas também o mais decisivo, é investir na formação de valores desde a base. Se queremos profissionais comprometidos amanhã, precisamos hoje de uma educação que ensine, para lá dos conteúdos técnicos, o sentido de responsabilidade, o respeito pelo tempo do outro e a compreensão de que todo o trabalho é, no fundo, um serviço à comunidade. Sem esta base, continuaremos a tratar os sintomas e não as causas.

Por fim, as instituições devem investir em ambientes de trabalho mais saudáveis, onde a saúde mental e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional deixem de ser temas secundários. Muito do absentismo nasce do esgotamento silencioso de quem já não aguenta dar sem nunca receber apoio em troca.

O absentismo não se resolve com uma única medida, nem com um único responsável. Resolve-se com instituições que lideram com proximidade, com sistemas que recompensam o compromisso e responsabilizam a sua falta, e com uma sociedade que volta a ensinar, desde cedo, que cada função que ocupamos carrega consigo a vida de alguém que depende de nós.

Quando um funcionário falta sem razão, o preço mais alto não é pago pela instituição, mas pelo cidadão do outro lado do balcão. Se queremos um país onde as pessoas voltem a acreditar nas suas instituições, temos de começar por algo simples e profundamente humano: estar presentes, de corpo e de compromisso, no lugar onde escolhemos servir.

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(*) Especialista em Capital Humano

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