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“Sem pessoas preparadas, as leis ficam no papel” - diz ambientalista Vladimir Russo

Victória Maviluka
21/10/2026
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Foto:
Andrade Lino

Sem participação social efectiva nos estudos ambientais e com falta de quadros especializados, Angola arrisca transformar boas leis e decisões em promessas por cumprir.

A transição energética não se faz apenas com leis, estratégias e compromissos ambientais. Exige pessoas preparadas para os executar e comunidades ouvidas nas decisões que afectam as suas vidas. Em Angola, Vladimir Russo identifica duas fragilidades que podem travar esse caminho: a reduzida atenção à dimensão social dos projectos e a escassez de recursos humanos qualificados.

O director executivo da Fundação Kissama defendeu maior integração da chamada licença social nos estudos de impacto ambiental. Na sua leitura, a avaliação dos efeitos sobre as comunidades continua, em muitos casos, relegada para segundo plano, apesar de ser essencial para uma transição energética sustentável.

“Nos próprios estudos de impacto ambiental, a parte social é esquecida, digamos assim”, afirmou o ambientalista, durante a mesa-redonda sobre ‘Ambiente, Financiamento e Transição Energética: Que Futuro Estamos a Construir para Angola?’, na VI Conferência E&M Ambiente e Desenvolvimento, realizada nesta quarta-feira, 21, em Luanda.

A fragilidade não se limita à concepção dos projectos. Estende-se à capacidade de transformar decisões em resultados. Para Russo, Angola demora a aprovar instrumentos e a avançar com medidas que poderiam impulsionar iniciativas ambientais, como o mercado de carbono. E, mesmo quando dispõe de legislação avançada, enfrenta dificuldades para a aplicar.

“Em alguns casos até temos leis muito boas e muito avançadas, mas há toda uma dificuldade de recursos humanos a nível do País todo”, alertou, sublinhando que o problema ultrapassa Luanda e exige investimento na formação de quadros com experiência para materializar as políticas aprovadas.

O ambientalista considera, por isso, que o País precisa de agir com maior rapidez e determinação, sem confundir aceleração com precipitação. A urgência está em criar condições institucionais e técnicas para que as decisões produzam efeitos concretos, tanto na descarbonização como na gestão dos recursos naturais.

Como exemplo das dificuldades de execução, apontou o contrabando de combustíveis subsidiados pelo Estado, que, segundo afirmou, continua a alimentar saídas ilegais para países vizinhos, como a República do Congo e a Zâmbia. Uma situação que, na sua perspectiva, expõe o fosso entre as orientações definidas e a capacidade de as fazer cumprir.

A mensagem de Vladimir Russo vai além da agenda climática: sem sensibilidade social, técnicos preparados e mecanismos eficazes de fiscalização, a ambição ambiental corre o risco de ficar presa no papel.