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Skytrax e Angola: tanto investimento e tão pouco reconhecimento

Pedro Castro
23/10/2026
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Foto:
DR

Os prémios da Skytrax afirmaram-se, há muito, como uma espécie de Óscares da indústria da aviação.

Como em Hollywood, há os grandes prémios, aqueles que ocupam as primeiras páginas dos jornais, como o de melhor companhia aérea do mundo e o de melhor aeroporto do mundo. Mas há também dezenas de outras categorias, geográficas e profissionais, que dizem talvez mais aos gestores do que as duas maiores estatuetas.

Na edição de 2026, a Singapore Airlines foi escolhida como a melhor companhia aérea do mundo e o aeroporto de Changi, também em Singapura, como o melhor aeroporto do mundo, o que não deixa de ser uma coincidência interessante para Angola: a Singapore Airlines também voa com os 787 dreamliner da TAAG e o melhor aeroporto do mundo é precisamente aquele cuja empresa gestora, a Changi Airports International, assinou em Fevereiro de 2024 uma parceria técnica de dois anos com a Sociedade Gestora de Aeroportos de Angola (SGA). O objetivo declarado desta contratação é ambicioso: desenvolver uma estratégia de longo prazo para maximizar o potencial de tráfego e a rentabilidade dos 16 aeroportos sob gestão da SGA, melhorar a conetividade aérea, desenvolver receitas não aeronáuticas e melhorar a experiência dos passageiros. Dois anos depois: onde estão os resultados desse investimento público?

É precisamente aqui que os prémios Skytrax 2026 se tornam reveladores: na lista dos dez melhores aeroportos de África, o primeiro lugar é ocupado por Cape Town e Marraquexe foi considerado o melhor aeroporto regional do Continente. Já a TAAG que recebeu uma frota completamente renovada, incluindo os tais Boeing 787 da Singapore Airlines, não consegiu ganhar (nem ser mencionada) na categora de melhor companhia africana (ganha pela Ethiopian Airlines) ou na de melhor tripulação de cabine (Egyptair) ou na de melhor limpeza dos aviões (South African Airways). Estes prémios não são uma fotografia política e propagandística de quem tem o avião mais novo ou o terminal mais caro; estes prémios são baseados na escolha e na experiência real dos passageiros e servem como uma bússola sobre se o que se está a fazer é reconhecido pela indústria e por quem utiliza, de facto, os serviços. Essa análise é muito relevante em Angola porque cada kwanza gasto pelo Estado tem um custo de oportunidade: quando o governo decide canalizar recursos públicos para construir um aeroporto novo desnecessário ou para financiar uma companhia aérea estatal altamente deficitária, são recursos que deixam de estar disponíveis para outras prioridades e o resultado dessas decisões tem de ser mensurável e escrutinado em termos de responsabilidade política. Na aviação, um aeroporto só cumpre a sua missão quando gera conetividade, tráfego, actividade económica e uma experiência que convence passageiros e companhias aéreas a utilizá-lo. É neste contexto que Angola precisa de deixar de confundir investimento com resultado: não basta construir, não basta comprar, não basta anunciar. É preciso medir e aceitar as consequências de ser medido. Se a SGA contrata a Changi Airports International, é legítimo perguntar quais foram os resultados concretos dessa parceria e como se reflectem na qualidade, eficiência, tráfego e experiência dos passageiros; se a TAAG recebe aviões novos e milhares de milhões de kwanzas em apoio público, é legítimo exigir que os gestores públicos transformem esses aviões em conetividade, receitas, passageiros e qualidade de serviço de e para Angola. O que não se pode fazer é contratar a Changi, comprar os Dreamliners, construir aeroportos de milhares de milhões e continuar a pedir aos angolanos paciência com os péssimos resultados porque se é para gastar como os melhores, é preciso começar a ser avaliado como os melhores

Os prémios Skytrax não são a Bíblia da aviação, mas podem funcionar como um espelho. Em aviação, como em economia, o investimento é sobretudo uma fatura à espera de resultados e ganhar nessa equação já seria um excelente prémio de consolação para todos os contribuintes angolanos.

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