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Moçambique busca “caminhos” de financiamento ao desenvolvimento em meio a crises

Hermenegildo Langa
4/9/2026
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Moçambique continua a confrontar-se, há mais de cinco décadas, com um paradoxo de uma economia insuficiente e sem transformação estrutural capaz de reduzir de forma acelerada a pobreza.

Num momento em que os choques globais tendem a intensificar-se e a ameaçar as economias, a definição de políticas claras de desenvolvimento baseado em recursos internos tornou-se urgente para Moçambique. No entanto, o desafio é por onde começar e, mais do que isso, perceber o que está ou falhou ao longo dos anos.

Moçambique é actualmente considerado um dos países com níveis de pobreza cada vez mais “alarmantes”, com o Banco Mundial a colocar a nação moçambicana como uma das mais pobres nesta última década. O cenário evidencia de certa forma sucessivas falhas e degradação das políticas de desenvolvimento sustentáveis mas também uma urgência para a mudança do paradigma.

Embora nos últimos anos o país tenha registado avanços importantes em áreas como saúde, educação e assistência social graças ao apoio dos parceiros de cooperação, continua no entanto a existir uma dependência significativa de recursos externos para financiar programas estruturantes, o que expõe a nação moçambicana a vulnerabilidades que não controla.

Os recentes desenvolvimentos internacionais demonstram que alterações nas prioridades políticas dos países doadores podem produzir impactos imediatos sobre programas essenciais. Por isso, o desafio não é apenas o volume de financiamento, mas a previsibilidade e a sustentabilidade desse financiamento.

À este respeito, o FMI relata na sua recente actualização ao estudo das Perspectivas Económicas Mundiais (World Economic Outlook) que a degradação do panorama económico em 2026 reflecte problemas persistentes no crescimento das potências mundiais, apontando a “perda de força de grandes economias”.

Para isso, a Ernst & Young (EY), uma das mais prestigiadas consultoras financeiras internacionais considera que o financiamento externo em Moçambique “precisa de ser cada vez mais complementar a uma estratégia nacional baseada na mobilização de recursos internos, crescimento do sector privado e melhoria da eficiência da despesa pública”.

À Revista Economia & Mercado (E&M), a economista e auditora (assurance partner) da EY em Moçambique, Francisca Neves, destaca a exigência de uma abordagem integrada e de longo prazo, frisando não existir uma solução única.

“É preciso que haja fortalecimento das instituições públicas e contínua melhoria da governação; investimento em capital humano (educação, saúde e qualificação profissional). Aposta na promoção da industrialização e transformação local dos recursos naturais, desenvolvimento infra-estruturas que reduzam custos logísticos e aumentem a competitividade bem como criar um ambiente favorável ao investimento privado”, defende Francisca Neves.

Ainda assim, a responsável alerta para desafios persistentes relacionados com a dispersão de iniciativas e o risco de duplicação de ajuda, defendendo ser fundamental “alinhar os investimentos com uma estratégia clara e baseada em resultados mensuráveis”.

Na verdade, o país não sofre necessariamente de ausência de diagnósticos, de planos ou de ambição estratégica. O problema mais profundo reside na consistência da implementação, na coordenação institucional, na qualidade da despesa pública, na capacidade técnica do Estado e na transformação de prioridades nacionais em projectos executáveis, mensuráveis e monitoráveis.

Um diagnóstico fácil que exige soluções pragmáticas

Moçambique é considerado um país rico em recursos naturais e capazes de financiar o crescimento económico sustentável. Mas, para o director da Divisão do Banco Mundial em Moçambique, Filipe Sissoko, a abundância de recursos, por si só, não garante o desenvolvimento, “as receitas devem ser canalizadas para investimentos produtivos”.

Convergindo no mesmo posicionamento, o representante residente do FMI em Moçambique, Olamide Harrison, refere que o país deve financiar o seu desenvolvimento sustentável,  criando um regime cambial previsível, reservas adequadas, e do lado fiscal, sustentabilidade orçamental e da dívida.

“É importante que a gestão da macroeconomia ocorra de uma forma activa para assegurar a estabilidade e sustentar o crescimento sustentável”, anuiu Olamedi.

Em 2025, cerca de 75% (74,6 mil milhões de meticais) da despesa de investimento público em Moçambique foi financiado por recursos externos, correspondendo um aumento de 46,1% em relação a 2024, de acordo com o Ministério da Economia. Por outro lado, a contribuição dos recursos internos representou apenas 25% do total, equivalentes a 24,1 mil milhões de meticais (373,8 milhões USD) — uma redução significativa de 46,8% em relação aos 45,3 mil milhões de meticais (702,2 milhões USD) alocados em 2024.

Para este ano, o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado fixado em 524,2 mil milhões de meticais (8,1 mil milhões USD) está com um défice de 77,7 mil milhões de meticais que deverá ser coberto por recursos externos.

Um estudo do Centro de Integridade Pública (CIP) revela que “a suspensão de financiamentos estratégicos, como os da USAID ilustra a volatilidade e a incerteza que caracterizam os fluxos externos — sobretudo os donativos —, o que fragiliza a execução das políticas públicas e compromete os objectivos de desenvolvimento do país”.

A este cenário, a economista Francisca Neves atenta que: “a dependência de ajuda externa amplifica os efeitos dos choques internacionais sobre a economia nacional”. “Num contexto global cada vez mais incerto, torna-se essencial reforçar a resiliência económica através da diversificação das fontes de financiamento, do fortalecimento da arrecadação interna e da promoção do crescimento sustentável do sector privado.”

Se por um lado, a dependência de recursos externos para financiar o desenvolvimento tem vindo a destapar vários problemas nos países que ao longo dos anos foram dependendo de forma excessiva de doações. Actualmente, as incertezas sobre a continuidade desses financiamentos tornaram-se cada vez maiores.

Um artigo recente do FMI, reporta o corte das ajudas externas para África e como consequência, cerca de 20 milhões africanos estarão em risco externo. Para o caso de Moçambique, o cenário revela mais uma incerteza, pois o país encontra-se ainda a negociar um novo programa financeiro.

Para a economista da EY, o cenário evidencia mais uma vez a urgência para adopção de políticas que há muito já deviam ter sido implementadas.  As reduções súbitas desses fluxos, segundo a fonte, podem afectar directamente populações vulneráveis e comprometer ganhos acumulados ao longo de vários anos.

Aposta em soluções locais

À semelhança de várias nações, Moçambique continua a enfrentar desafios estruturais significativos, entre os quais infra-estruturas degradadas e insuficientes, vulnerabilidade às mudanças climáticas, conflitos e episódios de violência, factores que continuam a limitar o crescimento socioeconómico sustentável.

Neste sentido, a economista moçambicana e antiga executiva do Banco Mundial, Clara de Sousa, afirma que “a ajuda externa não deve constituir a base do crescimento económico, mas sim catalisador para a concretização dos objectivos nacionais e para o fortalecimento do sector privado”.

“Nenhum país pode desenhar todas as suas estratégias à volta da ajuda. Muitas reformas económicas acabam por fracassar por serem implementadas apenas para responder às exigências dos financiadores, sendo abandonadas assim que termina o apoio financeiro”, defende De Sousa.

Partilhando a mesma ideia, o economista moçambicano, Omar Mithá, frisa que “vários programas de financiamento falharam no passado por replicarem modelos concebidos para mercados desenvolvidos”.

Em resposta aos actuais desafios, o Governo está em vias de materializar o Banco de Desenvolvimento de Moçambique (BDM), instituição que deverá entrar em funcionamento ainda este ano para financiar projectos estruturantes e acelerar a transformação económica. Para o Governo, o novo banco “constitui um marco histórico na arquitectura institucional do financiamento ao desenvolvimento”.

Entretanto, o economista Omar Mithá, adverte que a essência do BDM pode ser “corroída pela interferência política” caso não haja rigor na transparência e profissionalismo.