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África precisa 200 mil milhões USD em infraestruturas, mas erros na estruturação travam 90% dos projectos, alerta Muneer Ferozie (IFC)

Adnardo Barros
29/9/2026
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Foto:
Carlos Aguiar

Com apenas 10% das iniciativas a atingir o fecho financeiro em África, o que significa que nove em cada dez projectos morrem pelo caminho.

A fraca capacidade de preparação de projectos e a volatilidade política continuam a bloquear a entrada de capital privado nas infraestruturas em África, o que resulta numa taxa de insucesso de 90% na fase de captação de recursos (financial close), alerta Muneer Ferozie, Responsável Regional de Consultoria em Transacções da Corporação Financeira Internacional (IFC) para África.

A análise foi apresentada no painel "Financiamento de Infraestruturas de Transporte em África: Onde Está o Capital?", inserido na 2.ª edição do Angola Hub Transporte & Logística Summit 2026. Sob o lema «Impulsionando África para o Futuro» e o tema central "Conectando Mercados, Pessoas e Oportunidades".

Segundo a análise do responsável do organismo do Grupo Banco Mundial, o continente consegue cobrir apenas metade das suas necessidades anuais de financiamento para infraestruturas, avaliadas entre 160 e 200 mil milhões USD, uma lacuna grave que perpetua a dependência excessiva e crítica dos orçamentos estatais.

Apesar deste cenário, Muneer Ferozie sublinhou que os indicadores operacionais no continente desmentem a percepção exagerada de risco por parte do mercado. A taxa de falha dos projectos de infraestrutura situa-se em apenas 0,46%, um valor inferior à média global. Além disso, a taxa de incumprimento (default) varia entre 2,6% e 7%, o que supera o desempenho de outros mercados de rendimento médio e baixo, enquanto as taxas de recuperação de capital em cenários de stress  financeiro se encontram entre as mais altas do mundo.

Para alinhar a percepção de risco com a realidade dos dados e atrair investidores privados, o responsável da IFC defende quatro pilares estratégicos que passam pelo rigor pré-operacional sem precipitações, pela afectação eficiente de riscos à parte mais capacitada, pela estabilidade política e pela estruturação de programas previsíveis de investimentos a longo prazo.

"Muitas vezes, quando aconselhamos os governos, notamos uma urgência em lançar os projectos para o mercado. O resultado é que até podemos apresentar o projecto, mas quando se procuram os financiadores, eles têm opções no continente e no mundo inteiro", alertou Muneer Ferozie.

Segundo o responsável, os comités de crédito das instituições financeiras internacionais confrontam sistematicamente os investidores com a mesma questão sobre as razões para investir em África em detrimento do Médio Oriente ou da Ásia Central. "Se o projecto não estiver devidamente preparado, o capital de desenvolvimento simplesmente não entra", reinforced.

Com apenas 10% das iniciativas a atingir o fecho financeiro em África, o que significa que nove em cada dez projectos morrem pelo caminho, o executivo apontou a economia política e a visão de longo prazo como factores determinantes para reverter este quadro.

"À medida que África começa a ser mais selectiva, precisa de oferecer uma visão clara de que isto não é um projecto isolado, mas sim um programa de activos. Um investidor internacional que faz o esforço de convencer um comité de crédito quer ver uma carteira sustentada de oportunidades ao longo do tempo, e não apenas um negócio pontual", concluiu Ferozie.