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Seis em cada 10 mulheres em Angola não participam nas decisões sobre grandes compras do agregado familiar, revela INE

Teresa Fukiady
17/9/2026
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No conjunto das decisões analisadas pelo INE, 45,2% das mulheres participam em pelo menos uma decisão, enquanto 54,8% não participam em nenhuma.

Seis em cada 10 mulheres em Angola não participam nas decisões sobre grandes compras do agregado familiar, enquanto 70,2% não têm qualquer intervenção na decisão sobre o uso do dinheiro do parceiro, aponta o Relatório sobre Género do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O INE indica que a participação das mulheres nas decisões económicas dos agregados familiares continua limitada. No caso das decisões sobre grandes compras, 58,6% das mulheres não participam, 24,4% decidem conjuntamente com o parceiro e 17% tomam a decisão sozinhas.

A participação é ainda menor quando está em causa o dinheiro do parceiro. Neste caso, 70,2% das mulheres não participam na decisão, 25,1% decidem conjuntamente e apenas 4,7% tomam a decisão sozinhas.

A limitação da participação estende-se a outras decisões do agregado familiar. Sobre questões relacionadas com a própria saúde, 38,1% das mulheres não participam na decisão, enquanto 37,6% decidem conjuntamente com os parceiros e 24,3% tomam a decisão sozinhas. 

Nas decisões sobre visitas a familiares, 58,6% das mulheres também não participam, contra 30,3% que decidem conjuntamente e 11,1% que tomam a decisão sozinhas. 

No conjunto das decisões analisadas pelo INE, 45,2% das mulheres participam em pelo menos uma decisão, enquanto 54,8% não participam em nenhuma. Segundo o relatório, isto significa que mais de metade das mulheres continua sem participar nas principais decisões dentro do agregado familiar. 

A situação varia consoante o local de residência. Nas áreas rurais, 42,6% das mulheres apresentam um nível elevado de autonomia, contra 34,2% nas zonas urbanas. Já a ausência de autonomia é mais frequente entre as mulheres residentes nas cidades, com 58,9%, face a 46,3% nas áreas rurais. 

“Observou-se um gradiente inverso na condição económica, com maior autonomia entre mulheres dos quintis mais pobres (39% e 43,3%) e maior ausência de autonomia entre as mais ricas (59,7% e 61,7%), sugerindo que a autonomia pode estar associada a contextos de subsistência”; explica o estudo baseado no Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde 2023-2024, divulgado nesta terça-feira, 15. 

Em relação à situação laboral, as mulheres empregadas no momento da entrevista apresentaram maior ausência de autonomia (63,2%) em comparação às que não trabalhavam (46,1%), enquanto a autonomia elevada foi mais frequente entre aquelas fora do trabalho formal (45,3% contra 29%), sugerindo que a inserção laboral nem sempre se traduz em maior poder decisório no agregado.

De acordo com o INE, esses resultados indicam que, embora haja avanços na participação das mulheres em decisões domésticas, ainda predomina um padrão de autonomia limitada, com decisões frequentemente compartilhadas ou mediadas pelo parceiro. 

O instituto destaca que a autonomia nas decisões relacionadas com a saúde é particularmente relevante, por influenciar o acesso a serviços de saúde, cuidados pré-natais, parto seguro e saúde reprodutiva. Já a limitada autonomia na gestão dos recursos financeiros, segundo o INE, evidencia barreiras que podem restringir a capacidade das mulheres de decidir sobre investimentos em saúde, educação e bem-estar próprio e dos filhos. 

Por outro lado, o INE aponta que as questões culturais desempenham papel central nesse cenário. “A decisão conjunta, embora possa reflectir negociação e cooperação, também pode ser resultado de pressões culturais que limitam a autonomia plena da mulher. Além disso, a maior autonomia observada nas compras do agregado familiar indica que, em áreas de gestão cotidiana, as mulheres têm maior influência, enquanto decisões financeiras mais estratégicas ou sobre recursos do marido permanecem dominadas pelo parceiro”, afirma o relatório.