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Como acertar no seu programa de Responsabilidade Social Empresarial

Ailton Muchave
11/9/2026
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Foto:
DR

Uma pergunta continua a frustrar executivos e equipas por igual: como conseguem as empresas conciliar os seus objectivos de negócio com a criação de valor real para as comunidades onde operam?

Há mais de uma década que as empresas em todo o mundo têm investido somas avultadas na agenda da responsabilidade social. O investimento global ligado a critérios Ambientais, Sociais e de Governação (ESG) totaliza actualmente cerca de USD 34 mil milhões. No entanto, uma pergunta continua a frustrar executivos e equipas por igual: como conseguem as empresas conciliar os seus objectivos de negócio com a criação de valor real para as comunidades onde operam?

O desafio raramente começa por falta de ambição. Começa quando a implementação encontra a realidade: as comunidades reagem de forma diferente do esperado e os indicadores captam actividade, não transformação. Sem impacto demonstrável, torna-se cada vez mais difícil justificar o financiamento. Onde é que as empresas estão a errar?

Parte da resposta está num pressuposto errado: o de que a evidência é uma etapa final, e não um ponto de partida. A mudança que uma empresa quer alcançar tem de estar incorporada no desenho do projecto desde o primeiro dia, orientando cada etapa da implementação. Um projecto orientado por evidências e impacto começa com um objectivo claramente definido e o quadro de monitorização certo, permitindo que os resultados informem a tomada de decisão ao longo de toda a implementação.

Nas economias emergentes, como é o caso de Angola, persiste um desafio ainda mais agudo: a expectativa de transformação. Um estudo de seis anos realizado na África Oriental concluiu que as empresas ali enfrentam expectativas mais elevadas do que as suas congéneres em economias desenvolvidas, pois as comunidades não esperam apenas um produto melhor, esperam uma transformação completa do seu bem-estar.

Nenhuma empresa pode, ou deve, tentar resolver sozinha todos os desafios de desenvolvimento, mas muitas cometem o erro de oferecer uma solução em vez de co-criar com a comunidade. Os programas mais sólidos começam com um princípio mais simples: ouvir primeiro o que a comunidade considera urgente, quem detém a confiança local, e o que acontece depois de o projecto terminar. Essa mudança, de beneficiários para participantes, dá às comunidades capacidade de decisão e às empresas melhor informação.

Os programas mais sólidos começam com um princípio mais simples: ouvir primeiro o que a comunidade considera urgente, quem detém a confiança local, e o que acontece depois de o projecto terminar

Há quase quatro décadas que a ForAfrika trabalha em Angola junto de comunidades, do governo e de parceiros do sector privado, na resposta a emergências e no desenvolvimento de longo prazo. Uma lição manteve-se constante: a mudança duradoura raramente é entregue a uma comunidade, constrói-se com ela.

Começamos pelo Plano A da própria comunidade: o futuro que as pessoas já estão a construir. O nosso papel é apoiar esse plano, reforçando as forças já existentes e reunindo os recursos, as competências e as parcerias necessárias para ultrapassar barreiras e sustentar o progresso.

A nossa parceria com a SLB no Sul de Angola demonstra esta abordagem: um investimento construído em torno de necessidades identificadas localmente e de resultados mensuráveis. O projecto propôs-se resolver um défice de água e saneamento que afectava cerca de 7.000 pessoas no Município da Bibala, e mais 8.745 nos municípios do Humbe, Xangongo e Cahama. Começou com as próprias comunidades a identificar o problema, evoluindo depois para um plano de infra-estruturas aliado a formação, para que as comunidades pudessem continuar a gerir os seus próprios sistemas de água muito depois de concluída a reabilitação por meio de manutenção preventiva, gestão financeira, práticas de higiene, e como envolver o governo quando algo avaria. O resultado: uma redução de 95% na distância média percorrida para recolher água, e 15.745 pessoas com acesso a água e saneamento. Não água entregue uma única vez, mas a capacidade de a manter a fluir.

Um teste prático revela até que ponto um programa tem probabilidade de ser bem-sucedido. Antes de se comprometerem com um projecto desta dimensão, sugiro que as empresas angolanas coloquem três perguntas:

  • Este parceiro consegue apresentar um roteiro para a co-criação com as comunidades?
  • Existe evidência real por detrás da sua abordagem, e não apenas boas intenções?
  • Quanto tempo até que a mudança se torne visível e mensurável?

Um programa de RSE pode produzir um relatório impressionante e, ainda assim, mudar muito pouco. No entanto, pode transformar-se num investimento partilhado que fortalece as comunidades e dá às lideranças evidência real de que está a funcionar. A RSE compensa, mas o retorno começa muito antes de o primeiro Kwanza ser gasto: com o problema certo, a escuta real, o parceiro certo, e um acordo sobre o aspecto que a mudança deve realmente ter.

Ailton Muchave é Director-País da ForAfrika Angola, com base em Benguela, com mais de 27 anos de experiência a liderar iniciativas humanitárias e de desenvolvimento em Angola e Moçambique. É doutorado em Administração de Empresas pela Atlantic International University