O seguro de saúde atravessa, em Angola, um dos seus períodos de maior afirmação. Os números mostram um ramo em crescimento acelerado, com peso cada vez mais relevante na produção seguradora. Para muitas famílias e empresas, ter acesso a cuidados de saúde através de um seguro deixou de ser visto como benefício acessório e passou a assumir-se como uma necessidade.
Mas há uma diferença importante entre crescer e massificar. E talvez seja precisamente essa a discussão que o mercado precisa agora de fazer.
No primeiro semestre de 2024, o ramo Doença registou 72,318 mil milhões Kz em prémios brutos emitidos. No período homólogo de 2025, esse valor aumentou para 87,473 mil milhões Kz e, em 2026, alcançou 115,580 mil milhões Kz. Em apenas dois anos, a produção cresceu aproximadamente 60%. Hoje, o ramo representa 35,18% dos prémios do mercado segurador angolano.
É uma evolução assinalável. Mas os prémios dizem-nos quanto o mercado produz, não nos dizem, em bom rigor, quantas pessoas passaram a estar protegidas, e esta distinção é fundamental.
Um mercado pode crescer porque aumentou o número de segurados, mas também porque os prémios foram actualizados, os custos dos cuidados médicos aumentaram ou a composição das carteiras se alterou. Por isso, quando falamos do crescimento do seguro de saúde, não devemos automaticamente confundi-lo com expansão da cobertura da população.
É justamente aqui que começa o desafio da massificação. Massificar o seguro de saúde não é simplesmente aumentar o volume de prémios. É fazer com que a protecção chegue a segmentos da população que hoje permanecem fora do mercado. É conseguir que uma família com menor rendimento encontre uma solução compatível com a sua capacidade financeira. É permitir que pequenas empresas possam proteger os seus trabalhadores. É desenvolver produtos que respondam a necessidades reais de consumidores com diferentes capacidades financeiras.
Por isso, a massificação não pode significar apenas vender mais do mesmo a mais pessoas. Exige repensar produto, preço, distribuição e comunicação.
E exige ainda compreender que acessibilidade e sustentabilidade não são necessariamente objectivos incompatíveis. Um seguro barato, mas incapaz de responder adequadamente quando é necessário, não produz inclusão; produz frustração. Do mesmo modo, um produto tecnicamente excelente, mas financeiramente inacessível à maioria da população, dificilmente poderá ser considerado instrumento de massificação.
Os custos com sinistros ajudam a compreender esta equação. No ramo Doença, passaram de 45,515 mil milhões Kz no primeiro semestre de 2024 para 60,313 mil milhões em 2025 e 72,014 mil milhões em 2026. Ainda assim, no último período homólogo, os prémios cresceram 32,13%, enquanto os custos com sinistros aumentaram 19,40%.
A taxa de sinistralidade oferece outra leitura interessante. Situou-se em 62,94% no primeiro semestre de 2024, aumentou para 68,95% em 2025 e recuou para 62,31% em 2026.
Os números mostram que crescimento e sustentabilidade devem ser analisados conjuntamente. Massificar sem cuidar da sustentabilidade pode comprometer o próprio instrumento que se pretende expandir.
Há, entretanto, um princípio que não pode ser olvidado: o seguro funciona através da mutualização do risco. Quanto mais ampla, diversificada e equilibrada for a comunidade de segurados, maior poderá ser a capacidade de distribuir o risco. A massificação interessa, portanto, não apenas do ponto de vista social; pode também contribuir para uma base segurada mais ampla e diversificada, embora os seus efeitos dependam da composição das novas carteiras.
É neste ponto que os microsseguros podem assumir especial relevância. Não como uma versão menor do seguro tradicional, mas como oportunidade para pensar produtos simples, acessíveis e ajustados a realidades económicas distintas. Se queremos chegar a consumidores que hoje estão fora do mercado, talvez não possamos esperar que sejam eles a adaptar-se aos produtos existentes. É o mercado que precisa de desenvolver soluções capazes de chegar até eles.
A distribuição constitui outra parte da equação. A mediação tradicional continuará, por obvio, a desempenhar um papel importante, sobretudo porque o seguro de saúde exige aconselhamento e compreensão das necessidades do cliente. Mas a massificação requer também maior capilaridade, tecnologia, canais digitais, parcerias e modelos de distribuição capazes de reduzir a distância entre o seguro e o cidadão.
Contudo, nenhum canal de distribuição substitui a confiança. No seguro de saúde, esta é particularmente sensível. Entre aquilo que o segurado acredita ter contratado, aquilo que a seguradora efectivamente assumiu e aquilo que o prestador entende ser clinicamente necessário pode existir uma distância considerável. É nesse espaço que surgem incompreensões capazes de fragilizar a relação com o seguro.
Por isso, a literacia não deve começar quando uma prestação é recusada. Deve começar antes de a apólice ser assinada. Coberturas, exclusões, carências, limites, copagamentos, redes convencionadas e procedimentos de autorização precisam de ser explicados numa linguagem que o consumidor compreenda. Uma apólice mal compreendida pode representar uma venda hoje e uma relação de desconfiança amanhã.
A verdadeira maturidade deste ramo não será, portanto, demonstrada apenas pela capacidade de continuar a apresentar taxas expressivas de crescimento nominal. Será demonstrada quando conseguirmos responder a uma pergunta mais difícil: quantas pessoas estamos efectivamente a proteger?
Talvez o próximo salto do seguro de saúde em Angola não esteja nos milhares de milhões adicionais de prémios que conseguirá produzir, mas na capacidade de alargar a protecção para além dos segmentos que tradicionalmente já conseguem adquiri-la.
A palavra de ordem deverá ser massificar. E massificar significa transformar crescimento económico em acesso, acesso em protecção e protecção em confiança.













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