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Quando o banco não chega: pode a Bolsa financiar as empresas angolanas?

Filipe Vidal Avelino
11/9/2026
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Angola não precisa de escolher entre banca e bolsa. Precisa de uma arquitectura financeira em que ambas cumpram funções complementares.

Durante muito tempo, falar de financiamento empresarial em Angola significou, quase inevitavelmente, falar de bancos. Para muitas empresas, sobretudo as de menor dimensão, o crédito bancário continua a ser a principal porta de acesso ao capital. Mas essa porta nem sempre se abre: taxas de juro, exigência de garantias, maturidades inadequadas e limitações na avaliação do risco podem afastar empresas economicamente viáveis do financiamento de que necessitam para crescer.

É neste espaço que o mercado de capitais pode desempenhar um papel diferente, complementando a banca em vez de a substituir.

Os números recentes mostram um mercado a ganhar dimensão. No primeiro trimestre de 2026, o volume negociado na BODIVA atingiu cerca de 2,9 biliões de kwanzas, mais 123% do que no período homólogo de 2025, correspondendo a 8,34% do PIB, contra 4,32% um ano antes. A capitalização bolsista chegou a aproximadamente 4,7 biliões de kwanzas, um crescimento homólogo superior a 200%.

Seria, contudo, precipitado concluir que o mercado de capitais já se tornou uma fonte relevante de financiamento para as empresas. Há uma diferença essencial entre o dinheiro que circula num mercado e o dinheiro que efectivamente financia a economia produtiva. No primeiro trimestre de 2026, as Obrigações do Tesouro Não Reajustáveis representaram 68,55% do volume negociado na BODIVA, as OT-ME 24,30% e os Bilhetes do Tesouro 5,44%. As acções ficaram com apenas 1,21%.

O desafio já não é apenas desenvolver a bolsa. É fazer com que uma parcela crescente da poupança disponível seja canalizada para empresas, projectos produtivos e expansão empresarial.

Há sinais de mudança. O mercado dispõe hoje de instrumentos para necessidades distintas: acções para capitalização, obrigações para financiamento de médio e longo prazo e papel comercial para o curto prazo. A própria BODIVA apresenta o mercado de capitais como alternativa para empresas que procuram financiamento, através de dívida ou de capital. As pequenas e médias empresas passaram também a ter uma porta própria, com o Segmento MPME, concebido para facilitar o seu acesso ao mercado através de requisitos ajustados à sua dimensão.

Criar uma porta, porém, não significa que todas as empresas estejam preparadas para a atravessar. Captar recursos junto de investidores exige capacidade de gestão, informação financeira credível, transparência, organização contabilística e governação. O mercado de capitais não elimina o risco empresarial; torna-o mais visível e permite que seja avaliado e remunerado pelos investidores. Por isso, a pergunta que importa às MPME angolanas não é apenas se existe financiamento, mas se existem empresas preparadas para o receber através do mercado.

O mercado de capitais não elimina o risco empresarial; torna-o mais visível e permite que seja avaliado e remunerado pelos investidores

O desenvolvimento do mercado de capitais deveria por isso ser acompanhado de uma estratégia de preparação das empresas: educação financeira, melhoria da governação, contabilidade organizada, transparência e maior aproximação entre empresas, intermediários financeiros e investidores. As iniciativas da BODIVA e da CMC orientadas para o desenvolvimento do mercado e para a educação financeira mostram que esta transformação já está em curso.

Angola não precisa de escolher entre banca e bolsa. Precisa de uma arquitectura financeira em que ambas cumpram funções complementares: capital próprio para empresas em fase inicial, obrigações para as que estão em expansão, papel comercial para necessidades de liquidez temporárias. O objectivo não deve ser retirar empresas dos bancos para as colocar na bolsa, mas oferecer-lhes mais do que uma porta de financiamento.

O mercado de capitais angolano já deixou de ser apenas uma promessa institucional. O próximo desafio é transformar este crescimento em profundidade económica: que mais desse dinheiro chegue às empresas que precisam dele para investir, produzir e crescer, e que mais empresas estejam preparadas para o receber.

*Presidente do Conselho Fiscal da Resultados SCVM