Durante muito tempo, falar de financiamento empresarial em Angola significou, quase inevitavelmente, falar de bancos. Para muitas empresas, sobretudo as de menor dimensão, o crédito bancário continua a ser a principal porta de acesso ao capital. Mas essa porta nem sempre se abre: taxas de juro, exigência de garantias, maturidades inadequadas e limitações na avaliação do risco podem afastar empresas economicamente viáveis do financiamento de que necessitam para crescer.
É neste espaço que o mercado de capitais pode desempenhar um papel diferente, complementando a banca em vez de a substituir.
Os números recentes mostram um mercado a ganhar dimensão. No primeiro trimestre de 2026, o volume negociado na BODIVA atingiu cerca de 2,9 biliões de kwanzas, mais 123% do que no período homólogo de 2025, correspondendo a 8,34% do PIB, contra 4,32% um ano antes. A capitalização bolsista chegou a aproximadamente 4,7 biliões de kwanzas, um crescimento homólogo superior a 200%.
Seria, contudo, precipitado concluir que o mercado de capitais já se tornou uma fonte relevante de financiamento para as empresas. Há uma diferença essencial entre o dinheiro que circula num mercado e o dinheiro que efectivamente financia a economia produtiva. No primeiro trimestre de 2026, as Obrigações do Tesouro Não Reajustáveis representaram 68,55% do volume negociado na BODIVA, as OT-ME 24,30% e os Bilhetes do Tesouro 5,44%. As acções ficaram com apenas 1,21%.
O desafio já não é apenas desenvolver a bolsa. É fazer com que uma parcela crescente da poupança disponível seja canalizada para empresas, projectos produtivos e expansão empresarial.
Há sinais de mudança. O mercado dispõe hoje de instrumentos para necessidades distintas: acções para capitalização, obrigações para financiamento de médio e longo prazo e papel comercial para o curto prazo. A própria BODIVA apresenta o mercado de capitais como alternativa para empresas que procuram financiamento, através de dívida ou de capital. As pequenas e médias empresas passaram também a ter uma porta própria, com o Segmento MPME, concebido para facilitar o seu acesso ao mercado através de requisitos ajustados à sua dimensão.
Criar uma porta, porém, não significa que todas as empresas estejam preparadas para a atravessar. Captar recursos junto de investidores exige capacidade de gestão, informação financeira credível, transparência, organização contabilística e governação. O mercado de capitais não elimina o risco empresarial; torna-o mais visível e permite que seja avaliado e remunerado pelos investidores. Por isso, a pergunta que importa às MPME angolanas não é apenas se existe financiamento, mas se existem empresas preparadas para o receber através do mercado.
O mercado de capitais não elimina o risco empresarial; torna-o mais visível e permite que seja avaliado e remunerado pelos investidores
O desenvolvimento do mercado de capitais deveria por isso ser acompanhado de uma estratégia de preparação das empresas: educação financeira, melhoria da governação, contabilidade organizada, transparência e maior aproximação entre empresas, intermediários financeiros e investidores. As iniciativas da BODIVA e da CMC orientadas para o desenvolvimento do mercado e para a educação financeira mostram que esta transformação já está em curso.
Angola não precisa de escolher entre banca e bolsa. Precisa de uma arquitectura financeira em que ambas cumpram funções complementares: capital próprio para empresas em fase inicial, obrigações para as que estão em expansão, papel comercial para necessidades de liquidez temporárias. O objectivo não deve ser retirar empresas dos bancos para as colocar na bolsa, mas oferecer-lhes mais do que uma porta de financiamento.
O mercado de capitais angolano já deixou de ser apenas uma promessa institucional. O próximo desafio é transformar este crescimento em profundidade económica: que mais desse dinheiro chegue às empresas que precisam dele para investir, produzir e crescer, e que mais empresas estejam preparadas para o receber.
*Presidente do Conselho Fiscal da Resultados SCVM















