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Quem cuida dos médicos? – As vulnerabilidades de quem salvaguarda a saúde

Edgar Seque
8/10/2026
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Foto:
DR

Hospitais precisam redefinir os programas com redução de carga horária, reforçar o trabalho em equipas e estancar a cultura de humilhação na residência médica para que granjeemos mais especialistas.

Quantos mais precisamos morrer para que a nossa voz seja ouvida? O tempo não tem sido benevolente connosco, cada médico que cai é uma lâmpada que se apaga. O paradoxo é abismal – doar vida enquanto se morre em silêncio. 

O fôlego da vida não cabe nas nossas mãos, mas o cuidado requer destreza. Quem cuida de nós? Essa é a pergunta que nem o juramento de Hipócrates conseguiu responder. Enquanto seguramos a mão do paciente para que a morte não o capture, quem segura a nossa mão quando tudo se desmorona dentro de nós?

Segundo a Medscape Physicians and Suicide Report, publicado em 25 de Fevereiro de 2025, pelo menos 1 em cada 6 médicos (16,6%)  já cometeu ou tentou suicídio. Não é um exagero afirmar que vivemos a maior crise de saúde mental da história da medicina. Não são alucinações, é estatística. O médico não adoece de repente, ele desgasta na mente.

O perfume exalado pela medicina não é tóxico, porém é um modelo que foi desenhado para a resistência, não para a resiliência. O corpo não é maleável ao ponto de se configurar imune ao stress, à dor da perda, decisões, lutos, perdas de sono, fome e permanente pressão do mundo. A família não é apenas um inútil expoente nesta equação, tem a sua quota inegociável.

Os nossos ombros servem de amparo, onde devem cair as nossas lágrimas?  Tudo que existe tem nome. O apogeu da dor, da exaustão mental e física chama-se BURNOUT. Soa frio e tímido, mas os seus efeitos são devastadores. É conhecido com o código de CID-11: Burnout – Síndrome de Esgotamento Profissional – QD85.

O silêncio nem sempre representa uma virtude, pode ser só a ponta do iceberg da colisão entre a sanidade e o distúrbio. Segundo dados da Organização Médica Colegial de Iberoamérica – 2024, em cada 10 médicos, 7 apresentam esgotamento severo, isto num grupo com menos de 35 anos de idade. Recuando, um estudo feito no Brasil pela Afya, em 2024, demonstrou que 39,8% já têm diagnóstico de doença mental. Distribuídos nas seguintes proporções: 33,5% – ansiedade, 22,1% – depressão e 6,7% – burnout. Mas o poço é mais fundo. O espectro revelou que mais de 50% já apresentavam sintomas de burnout sem nunca terem sido diagnosticados. Cada terreno apresenta as suas variações, pesquisas de larga escala têm como objectivo desenhar um panorama universal.

Angola apresenta um escrutínio peculiar, com 36.604.681 habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), e 10.683 médicos, de acordo com dados estatísticos oficiais do Ministério da Saúde (MINSA). Deste grosso, apenas 5.945 médicos pertencem ao sector público. Com a taxa de pobreza monetária  em 40,6% (INE), sem muita engenharia, é perceptível que o rácio de atendimento médico diário fuja dos números convencionais.

Entretanto, o médico é um paciente ambulante. A pergunta continua a soar alto: Quem cuidado dos médicos? Nenhum esconderijo detém a morte, isto está claro como a água – os médicos também morrem. Mas quando os jovens médicos morrem de forma escalonada, o choro e a lamúria não podem ser o único consolo, há necessidade de estudar o fenómeno. A morte de um médico não representa apenas uma perda, é o prenúncio do colapso do sistema de Saúde, sem desprimor a outras classes.

A pergunta continua a soar alto: Quem cuidado dos médicos? Nenhum esconderijo detém a morte, isto está claro como a água – os médicos também morrem

A despersonalização é quando o médico, como mecanismo de defesa automático, passa a tratar o paciente como um número, um leito, um procedimento. Segundo Aquino Neto GR, et al. no artigo ‘Síndrome de Burnout em médicos plantonistas’, publicado na Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, em 2025; nº34, pp.58-72, dos 79 médicos  que participaram da pesquisa, 59,4% sofriam de exaustão emocional e 46,8% com sintomas de depressão e ansiedade. A despersonalização é o cérebro a se desligar automaticamente como autoproteção. O médico angolano inserido no sector público trabalha em média 74 horas por semana, sendo estas horas é o cumulativo do cumprimento do horário normal da função pública mais as horas de dois plantões que são realizados em via de regra.

O limite seguro para qualquer trabalhador é de 40 horas semanais, de acordo com a OMS/OIT, 2021. Acima de 55 horas, o risco de morrer de AVC sobe até 35%. Para médicos, a Europa limita a 48 horas, os EUA a 880 horas para residentes e o Brasil fazem até 57,2 horas semanais. (WHO & ILO. Long working hours increasing deaths from heart diseasse and stroke. Environment international, 2021). Os números são sinceros. O médico angolano, além dos plantões que podem ser dois a três na semana, dependendo do contexto, em muitas unidades sanitárias, têm os plantões de reforço que permite atingir a sobrenatural marca de 192 horas laborais.  Indubitavelmente, temos mais horas de trabalho semanal comparado com o padrão estabelecido nos EUA, Brasil e Europa.

A falsa ideia que se tem de que o médico é um pequeno Deus e não se cansa agudiza o estado emocional, começa na mente e aos poucos desgasta os ossos.

As feridas transparentes: Ansiedade, depressão e dor crónica

As imperfeições nos provam que é impossível não errar e a medicina ensina que não podemos errar. Independentemente de qual interpretação queiramos atribuir a esta frase, o ego humano tem de se encolher e assumir que a medicina está coberta de razão. No meio do dilema, germina a culpa. O homem é falho, logo, esta brecha serve de caminho para que a ansiedade entre. Um estudo realizado pela Afya 2024 Brasil demonstrou que 33,5% dos médicos foram diagnosticados com ansiedade. O perfeccionismo habita nas mesmas mãos de quem tem medo de não errar, de perder uma vida, de não ser suficientemente capaz ou de ser processado. Afinal, quem cuida dos médicos?

No contexto angolano, a depressão ainda é tida (por uma grande maioria) como doença dos fracos, como se, naturalmente, fôssemos imunes. Para os médicos que convivem com sintomas e não buscam ajuda, talvez por vergonha ou medo de perder a credibilidade, nesta hora, tudo pesa. No cômputo geral, as mulheres médicas são as mais atingidas de todos os transtornos mentais na medicina. O espaço parece pequeno para cumular tripla função  –  hospital, estudos, casa/filhos. Esta análise corrobora com o estudo da Notably, women reported higher rates of all three conditions compared to men, que revelou:

  1. Burnout: 4,7% (Homens) / 90,1% (Mulheres)
  2. Depressão: 4,8% (Homens) / 78,9% (Mulheres)
  3. Ansiedade: 8% (Homens) / 78,9% (Mulheres)

Os médicos estão programados a oferecer esperança, dizer que “vai ficar tudo bem” mesmo quando não acreditam nas suas próprias palavras. É um conflito que amolesta a nossa fé em relação à vida. Aprendemos a encarar a morte sem cair uma gota de lágrima, segurar o grito e voltar a casa com o nó no pescoço. Este padrão que se repete todos os dias, a qualquer momento se desconfigura. Os mortos falam nas nossas cabeças, o nosso silêncio é mais perigoso que as lágrimas que caem quando não as conseguimos segurar. O médico não é Deus em miniatura, é um barro com uma alma capaz de sentir ao ponto de se desfazer em pedaços.

Quando o médico não consegue se curar: suicídio...

O suicídio é uma pólvora silenciosa que raramente atravessa os holofotes. Em 2022, houve 731 suicídios contabilizados pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC), um dado que dava pistas de que o problema é real. Este dado, que parecia inofensivo, está a ganhar forma. Diante de um fenómeno de saúde pública, é obrigatório accionar as medidas de prevenção para se evitar uma cascata. Em 2025, só no 1.º trimestre foram registados mais de 500 casos de suicídio e mais de 500 pessoas internadas no Hospital Psiquiátrico por tentativa de suicídio, segundo o Secretário de Estado para Saúde Pública, Pinto de Sousa, ouvido pela Rádio Nacional de Angola (RNA). 

Segundo Medscape Physicians and Suicide Report 2025, lançado em Fevereiro de 2025, é categórico: 1 em cada 6 médicos já contemplou ou tentou suicídio. O índice havia caído após a pandemia, mas voltou a subir. A partir de uma meta-análise publicada no The Lancet 2021, médicas têm 2,3 vezes mais risco de suicídio que a população geral feminina. Nos EUA, estima-se que um médico se suicida por dia. Em Angola não há evidências documentadas de casos de suicídio na classe médica, mas pelas condições e sobrecarga de trabalho que se vive, podemos estar a abrir uma estrada em direcção ao abismo.

Em 2022, um dos casos que mais geraram comoção a nível internacional foi o da doutora Lorna Breen, chefe da emergência em Nova York, que se suicidou aos 26 de Abril de 2020, após ver morrerem pacientes demais, sem EPI (Equipamento de Protecção Individual), sem leito, na primeira onda da COVID-19. A sua morte criou nos EUA a Lei de Protecção à Saúde Mental dos Profissionais de Saúde. Ironicamente, a lei foi criada porque alguém morreu, quando deveria ser criada para evitar mortes. E nós, qual lei nos protege? O quê e quem cuida dos médicos?

O corpo que também adoece

O facto de estar em pé não significa que está tudo bem. A fragilidade não é apenas física, também é emocional. Estudos demonstraram que doenças cardiovasculares precoces aumentam por privação de sono, transtornos musculoesqueléticos por horas em pé em procedimentos  cirúrgicos, obesidade, gastrite e hipertensão crescem por alimentação irregular e plantões apertados. Como pode um médico cuidar um paciente com AVC enquanto a própria pressão está 180/100 mmHg?

O estudo da Fundação dos Médicos Americanos (2023) mostrou que 3,6% dos médicos com doença mental já precisaram de internação psiquiátrica, com média de afastamento de 5,1 semanas. Quando se recupera, volta para a mesma escala em que adoeceu. O cenário é semelhante no contexto angolano. Por exemplo, muitos casos de médicos que trabalham nos serviços de infecciologia já contraíram infecções relacionadas com os cuidados de saúde, porém, após o tratamento, voltaram aos mesmos postos de trabalho. Todas as classes precisam de uma atenção especial, sobretudo a classe médica, que é uma gota no oceano populacional.

Sejamos sinceros, quem cuida dos médicos?

Talvez a resposta seja: cada um por si e Deus por todos. Lamentavelmente, é a única resposta. Ainda que a resposta fosse “eles mesmos cuidam de si”, a protecção é fraca. Cuidar de quem cuida é o padrão de reciprocidade e altruísmo. O cuidado daquele que cuida  exige 3 níveis:

1. Institucional: Se não se remove a carga dos ombros, ainda que sentemos, o cansaço prevalece. Os hospitais precisam redefinir os programas com redução de carga horária, reforçar o trabalho em equipas e estancar a cultura de humilhação na residência médica para que granjeemos mais especialistas.

2. Colectivo: Nenhum médico é herói, não podemos ir além daquilo que podemos dar, prejudicando a nossa saúde. Ninguém é inabalável, todos merecemos descanso. Apoio mútuo, físico e emocional. Há necessidade de se criarem espaços ‘leves’ após mortes difíceis, grupos de apoio e não tribunais maquiavélicos.

3. Individual e social: Se o médico tirar a bata, é um cidadão comum, sujeito às mesmas paixões e sentimentos humanos. A sociedade precisa entender isso. O médico não é um pequeno Deus que pode tudo, suporta tudo. Ao médico não podem ser atribuídos poderes que o ultrapassam, pois nenhum ser humano está habituado à insónia. O médico é humano, precisa de terapia, de descanso e tem o mesmo direito de dizer: “hoje não estou bem”. Se não cuidarmos de quem cuida, quem cuidará dos que precisam de cuidados?